Reprodução — evidência limitada

Shilajit e fertilidade

Muita gente procura shilajit por fertilidade masculina. A tradição ayurvédica fala em vitalidade e espermatogénese; o marketing promete resultados. A ciência humana, por agora, é estreita — e vale a pena vê-la com calma.

Resina de shilajit sobre rocha; o que os estudos mostram sobre parâmetros seminais e o que ainda falta provar

Em casais que demoram a conceber, o factor masculino entra numa parte relevante dos casos. Daí a procura por suplementos «naturais» que prometem mais espermatozóides, melhor motilidade ou «boost» hormonal. O shilajit (mumijo) aparece nesse discurso há séculos na Índia como vrisya / rasayana — rejuvenescimento e suporte à reprodução — mas tradição não equivale a alegação de saúde autorizada na UE nem a prova de gravidez.

O que existe de mais concreto em humanos é sobretudo um ensaio clínico pequeno em homens com contagem baixa de espermatozóides (oligospermia), com um extracto processado específico. Melhoraram alguns números do esperma e hormonas face ao valor inicial; não houve placebo, e isso não prova gravidez, nascidos vivos nem efeito de qualquer frasco comercial. Abaixo: o que foi medido, com que limites, e o que o marketing costuma exagerar. Contexto hormonal: testosterona. Mulheres: shilajit para mulheres. Visão geral: para que serve.

Matriz alegação → evidência

AlegaçãoNívelNota
Melhoria de parâmetros seminais em oligospermiaEnsaio clínico aberto · vs baselineBiswas et al. 2010 (Andrologia): PS 100 mg 2×/dia × 90 dias; 28 completadores. Sem braço placebo.
↓ MDA seminal (marcador de peroxidação lipídica)Mesmo ensaio−18,7% face ao baseline (P < 0,05). Interpretação antioxidante dos autores — não prova causalidade clínica isolada.
↑ testosterona e FSH séricos no mesmo grupoMesmo ensaioT +23,5% (P < 0,001); FSH +9,4% (P < 0,05); LH sem alteração significativa. Ver também Pandit 2016 (outro desenho).
«Recuperar fertilidade» / gravidez garantidaNão demonstradoQuatro relatos de caso no paper não são taxa de gravidez controlada nem nascidos vivos como desfecho primário.
Fertilidade feminina / ovulaçãoEvidência humana insuficiente neste clusterEste ensaio é só masculino. Página: /shilajit-mulheres/.
Qualquer resina comercial = processed Shilajit do estudoNão demonstradoPS padronizado (DBP, DCP, fúlvicos) por processo patenteado; ≠ frasco genérico sem COA.

Biswas et al. (2010) — desenho do ensaio

Biswas et al. (Andrologia, 2010; online 2009; PMID 20078516) avaliaram segurança e actividade espermatogénica de processed Shilajit (PS) em homens com oligospermia no J. B. Roy State Ayurvedic Medical College and Hospital (Calcutá), com aprovação ética e consentimento WHO-Helsinki. Período: Junho 2006 – Janeiro 2008.

  • Produto: rocha bruta processada por procedimento patenteado (extracção aquosa a quente, spray-dry); cápsulas de 100 mg. Padronização reportada (Tabela 1): DBP livres/conjugados ≥0,30% (medido 0,45%); DCP ≥10% (16,75%); ácidos fúlvicos e equivalentes ≥50% (54,80%) — perfil próximo do tipo PrimaVie/Natreon usado noutros papers do mesmo grupo, não comprovação de equivalência com cada SKU de prateleira.
  • Dose: 100 mg 2×/dia após refeições principais (200 mg/dia) durante 90 dias. Os autores referem alinhamento com doses tradicionais e ~1/10 da LD50 oral animal citada na literatura.
  • População: infertilidade primária/secundária 1–5 anos; idade 30–45 anos; contagem < 20 milhões/ml (critério usado no estudo; referência clássica pré-WHO 2010/2021 — não actualizar o paper com limiares novos). Também critérios de motilidade/morfologia/volume na inclusão; exclusão de azoospermia, asthenospermia, necrozoospermia, teratozoospermia, doenças graves, tratamentos recentes de infertilidade e história de certas infecções/lesões genitais.
  • Fluxo: 60 avaliados → 25 excluídos → 35 enrolados → 28 completaram; 7 descontinuaram (violação de protocolo 2, perda de follow-up 3, decisão médica 2). Análise dos completadores vs baseline.
  • Sem placebo: o comité de ética (IEC) não permitiu braço placebo, segundo os autores, «dada a gravidade da doença». Isto é uma limitação metodológica central — regressão à média, efeito Hawthorne e evolução espontânea não estão controlados.
  • Desfechos: semenograma (dia 0 e 90; abstinência ≥7 dias), hormonas (T, LH, FSH), MDA seminal, hematologia e bioquímica de segurança.

Números seminais (média ± DP; n = 28)

Valores da Tabela 3 do artigo. Percentagens são as reportadas pelos autores face ao dia 0. A contagem média passou de ~10,6 para ~17,1 milhões/ml — ainda abaixo do limiar de inclusão (< 20 milhões/ml) em média no dia 90, apesar da melhoria relativa grande.

ParâmetroDia 0Dia 90Δ
Spermia (volume) (ml)2,132,93+37,6%
Contagem total (milhões/ml)10,6017,11+61,4%
Motilidade (30 min) (%)64,0772,03+12,4%
Motilidade (60 min) (%)59,6467,53+13,2%
Motilidade (120 min) (%)51,3660,32+17,4%
Morfologia normal (%)62,7974,68+18,9%
MDA seminal (μmol/mg)0,0910,074−18,7%

Também reportaram redução de células de pus (−55,5%) e epiteliais (−81,1%) nos campos onde estavam presentes. pH e tempo de liquefação quase sem mudança. HPLC do sémen no dia 90 sugeriu picos compatíveis com constituintes do PS (fúlvicos/DCP) ausentes no dia 0 — indício de exposição sistémica/local, não prova de mecanismo.

Hormonas no mesmo ensaio

MarcadorDia 0Dia 90ΔNota
Testosterona (ng/ml)4,855,99+23,5%P < 0,001
FSH (mIU/ml)8,949,78+9,4%P < 0,05
LH (mIU/ml)7,457,33−1,6%NS

Os autores interpretam ↑ T + FSH e MDA ↓ como coerentes com melhor suporte à espermatogénese e menor stress oxidativo seminal. Isto é interpretação pós-hoc num desenho sem controlo. O ECR Pandit 2016 (PrimaVie, 500 mg/dia, homens saudáveis 45–55, com placebo) mediou androgénios noutro contexto — detalhe em shilajit e testosterona. Não fundir os dois num único claim de «cura infertilidade».

Gravidez: o que o paper realmente diz

Na discussão/conclusão, os autores descrevem quatro casos em que o casal reportou início de gravidez após ~3 meses, com laboratórios da parceira. São relatos narrativos seleccionados, sem denominador formal de taxa de gravidez, sem grupo controlo e sem follow-up de nascidos vivos como endpoint pré-especificado. Útil como hipótese geradora; insuficiente para alegar que o shilajit «restaura fertilidade» ou aumenta probabilidade de conceção.

Segurança laboratorial no ensaio

Na Tabela 2 (n = 28), perfis hepático e renal permaneceram sem alterações clinicamente alarmantes na dose usada; algumas variações pequenas (ex. creatinina, glicemia de jejum) com P < 0,05 mas dentro de leitura de segurança dos autores. Não houve sinal de toxicidade sistémica grosseira neste painel — isso não valida segurança de lotes comerciais contaminados. Ver metais pesados e COA.

Limites que o marketing apaga

  • Comparação só com baseline — IEC barrrou placebo.
  • Amostra pequena (28 analisados); 20% de abandono (7/35).
  • Um centro, um produto processado específico, um grupo de investigadores.
  • Sem desfecho primário de gravidez clínica / live birth rate.
  • Não inclui azoospermia nem vários outros fenótipos de infertilidade masculina.
  • Cleveland Clinic e Examine: evidência humana de fertilidade/T pequena, antiga e limitada — mais dados necessários.
  • Exsudado cru ou «Himalayan» no rótulo ≠ PS padronizado do ensaio.

Contaminantes e planeamento de gravidez

Quem tenta conceber (homem ou parceira) deve tratar suplementos como decisão clínica, não como atalho. Material ayurvédico com metais foi associado a intoxicações noutras preparações; o risco depende do lote. Precauções: contraindicações; critérios de compra: como escolher; enquadramento UE/PT: legal em Portugal.

O que este site não afirma

  • Tratamento estabelecido de infertilidade masculina ou feminina.
  • Taxa de gravidez ou nascidos vivos comprovada.
  • Equivalência entre qualquer marca e o PS do Biswas 2010.
  • Substituição de avaliação andrológica / ginecológica / PMA.
Infográfico: shilajit e fertilidade — Biswas 2010, parâmetros seminais, hormonas e limites do estudo

Perguntas frequentes

Shilajit trata infertilidade masculina?

Não há indicação clínica estabelecida. Há um ensaio aberto em oligospermia com melhoria de parâmetros seminais e hormonais face ao baseline num processed Shilajit específico.

Qual a dose do estudo de fertilidade?

100 mg de PS duas vezes ao dia (200 mg/dia) durante 90 dias. O Pandit 2016 usou 250 mg 2×/dia de PrimaVie em homens saudáveis — doses e populações diferentes. Números descritivos, não recomendação deste site.

Porque não houve placebo?

Os autores afirmam que o IEC local não autorizou placebo. Em termos de evidência, isso enfraquece a causalidade: não sabemos o que teria acontecido sem PS.

Melhora a fertilidade feminina?

Este paper não estuda mulheres. Não há, nas fontes revistas para este artigo, ensaios humanos robustos que sustentem essa alegação. Ver mulheres.

Quatro gravidezes no estudo = prova?

Não. São casos narrativos sem taxa controlada. Marketing que os transforma em «comprovado para conceber» está a overclaim.

Fontes e referências

  1. Biswas et al. (2010). Clinical evaluation of spermatogenic activity of processed Shilajit in oligospermia. Andrologia. PMID 20078516: PS 100 mg 2×/dia × 90 dias; 35 inscritos, 28 completaram; sem placebo
  2. DOI Wiley: 10.1111/j.1439-0272.2009.00956.x: Tabelas 1–3; fluxo; IEC sem placebo; 4 relatos de gravidez
  3. Pandit et al. (2016). Andrologia. PMID 26395129: ECR androgénios em saudáveis; não é ensaio de gravidez
  4. Cleveland Clinic: Shilajit Benefits, Side Effects and Uses: fertilidade/T: estudos pequenos e antigos; mais dados necessários
  5. Examine.com: Shilajit: pouca investigação humana de alta qualidade no conjunto