Contaminantes e segurança

Shilajit e metais pesados

Shilajit é organomineral: pode concentrar metais tóxicos se a origem e a purificação forem deficientes. Este artigo separa risco documentado, limites UE em suplementos, o que estudos e testes independentes mostram, e porque mg/kg no frasco ≠ exposição por dose.

Resina de shilajit em rocha, montanhas ao fundo

«Metais pesados» no contexto de suplementos refere-se tipicamente ao painel chumbo (Pb), cádmio (Cd), arsénio (As) e mercúrio (Hg). No shilajit o tema não é teórico: a literatura e programas de teste independentes tratam contaminantes como risco real de material cru ou mal processado. O nome no rótulo não garante o teor do lote.

Como ler o documento de laboratório: certificado de análise (COA). Precauções de uso: contraindicações. Critérios de compra: como escolher.

Porque o shilajit pode trazer metais

Shilajit forma-se em ambientes de alta montanha como exsudado organomineral. A fracção inorgânica inclui minerais e elementos vestigiais; a mesma matriz geológica pode incluir elementos tóxicos. Revisões científicas alertam que o consumo de preparações sem purificação prévia pode expor a metais pesados, micotoxinas e outras impurezas (Carrasco-Gallardo et al., 2012). Uma revisão de 2024 (Hussain & Saeed) aborda precisamente o papel dos metais e das substâncias húmicas no shilajit e conclui que consumir sem conhecer teores admissíveis não é seguro: os húmicos ligam metais em modelos, mas isso não prova detoxificação clínica nem isenta o produto de limites.

Distinção útil: minerais essenciais (Ca, Mg, K, etc.) em teores baixos por dose ≠ painel de toxicidade. «84 minerais» no marketing não responde à pergunta Pb/Cd/As/Hg. Cru vs processado: shilajit cru vs purificado. Composição: composição do shilajit.

O painel Pb, Cd, As, Hg

  • Chumbo (Pb): Metal neurotóxico cumulativo. Em matéria mineral não purificada, os teores podem ser elevados; só certificados de lote permitem avaliação.
  • Cádmio (Cd): Associado a risco renal e ósseo a longo prazo. Exige painéis de metais pesados por lote, com método e unidade claros.
  • Arsénio (As): Pode ocorrer em matrizes geológicas. Diferenciar formas e ler o limite de deteção do laboratório: «não detetado» não é zero absoluto.
  • Mercúrio (Hg): Elemento volátil com limiares rigorosos em suplementos. Comparar apenas resultados com o mesmo método e unidade.

Em botanicais e suplementos, a técnica de referência corrente para este painel é ICP-MS (espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado). Programas independentes (ex. ConsumerLab) e padrões de desempenho (ex. AOAC SMPR 2024.002 para contaminantes elementares) usam ICP-MS. Sem método no relatório, os números não são comparáveis entre marcas.

O que estudos e testes encontraram (sem generalizar o seu frasco)

Os resultados discordam porque as amostras, origens, processamento e limiares de comparação diferem. O que se pode afirmar com fontes públicas:

  • Inquérito a produtos ayurvédicos (Saper et al., 2008): em amostras compradas online/retalho, várias preparações continham Pb, Hg e/ou As; uma preparação de shilajit tinha chumbo detectável. Não prova que todo o shilajit esteja contaminado; prova que a categoria não é automaticamente limpa.
  • Análise Índia vs Paquistão (Aldakheel et al., 2021): em amostras analisadas por LIBS/ICP/EDX, os autores reportaram vários elementos tóxicos (incl. Pb, As, Hg) acima dos limites permissíveis que usaram nessa comparação. Valores absolutos e limiares são os do estudo: não os copie como lei UE.
  • ConsumerLab (revisão pública 2024): em oito suplementos de shilajit testados, metais pesados estavam abaixo dos níveis de preocupação do programa se tomados numa dose diária; alguns produtos poderiam exceder limiares rigorosos de chumbo (referência Prop 65) se a toma diária fosse superior a uma. Método: ICP-MS para Pb, As, Cd, Hg.

Casos de intoxicação por chumbo em grávidas associados a medicamentos ayurvédicos contaminados (CDC MMWR, 2012) reforçam precaução na categoria, sem imputar automaticamente cada frasco de shilajit. Ver contraindicações.

Limites na UE para suplementos alimentares (Reg. 2023/915)

O Regulamento (UE) 2023/915 fixa teores máximos de certos contaminantes nos géneros alimentícios. Para suplementos alimentares, os máximos relevantes de metais (produto tal como colocado no mercado, em mg/kg) são:

MetalMáximo UENota
Chumbo (Pb)3,0 mg/kgTodos os suplementos alimentares (ponto 3.1.28).
Cádmio (Cd)1,0 mg/kgSuplementos em geral (3.2.21.1). 3,0 mg/kg só se ≥80% algas/moluscos secos (não típico do shilajit).
Mercúrio (Hg)0,10 mg/kgTodos os suplementos (ponto 3.3.2).
Arsénio (As)Sem ML geral de SA no Anexo IO Reg. 2023/915 não fixa, neste painel, um máximo específico de arsénio para suplementos alimentares como categoria; operadores e labs usam especificação própria ou referências de outras jurisdições. Exija número, método e unidade no COA.

Pontos de leitura que evitam erros:

  • O limite é em mg/kg do suplemento acabado, não em µg por dose diária. Uma cápsula de 500 mg e uma saqueta de 10 g partilham o mesmo tecto em mg/kg; a exposição diária depende da quantidade ingerida.
  • Cumprir 3,0 mg/kg de Pb no produto não é o mesmo que cumprir limiares Prop 65 em µg por toma (muito usados em testes EUA e no marketing). Unidades e bases diferentes.
  • 1 mg/kg = 1 ppm = 1000 µg/kg. Confundir ppm com ppb ou mg/kg com µg/dose invalida a comparação.
  • Legalidade de colocar no mercado (contaminação) ≠ estatuto novel food. Estatuto: shilajit legal em Portugal.

Prop 65 e limiares por dose: referência, não lei portuguesa

A Califórnia (Prop 65) exige aviso acima de certos limiares de exposição; para chumbo em suplementos, programas como o ConsumerLab usam tipicamente cerca de 0,5 µg de Pb por toma diária recomendada (com ajustamentos se houver cálcio/herbais), não o tecto de 3,0 mg/kg da UE. Por isso um produto pode «passar» um critério e falhar outro, ou passar numa dose e falhar se a marca recomenda duas tomas. Em Portugal, o quadro de contaminantes em suplementos é o Reg. 2023/915 (+ legislação alimentar geral); Prop 65 é útil como referência de exposição, não como diploma PT.

LOD, LOQ e «não detetado»

«Não detetado» ou «< LOD» significa abaixo do limite de deteção do método naquele laboratório, não zero absoluto. LOQ é o limiar a partir do qual a quantificação tem a precisão definida. Comparar duas marcas só faz sentido com método, unidade e, idealmente, LOD/LOQ semelhantes. Detalhe operacional: guia COA.

Purificação, COA e mitos

  • Purificação reduz impurezas do material cru; não substitui análise do lote acabado.
  • COA do lote do frasco que compra: laboratório, data, método, unidades, especificação. PDF genérico ou de outro lote não audita o seu.
  • «Os húmicos sequestram metais» em química ambiental/laboratorial não equivale a alegação de segurança do suplemento nem a isenção de limites legais.
  • «Testado para metais» sem números, lab e lote é marketing. Um inquérito a catálogos de produto (ShilajitDB) ilustra o funil: muitos alegam teste; poucos publicam relatório independente com Pb/As/Cd/Hg numéricos no produto acabado.
  • Micotoxinas e microbiologia são outro painel: relevante em material orgânico, mas distinto dos quatro metais.
Infográfico: shilajit e metais pesados, limites UE, COA e checklist

Checklist prática

  1. Exigir COA do lote com As, Cd, Pb, Hg (ICP-MS ou equivalente documentado).
  2. Confirmar unidade (mg/kg, µg/g, µg/dose) e se o valor é total ou especiação (ex. As inorgânico).
  3. Confrontar com Reg. 2023/915 quando o produto é suplemento na UE (Pb 3,0; Cd 1,0; Hg 0,10 mg/kg no acabado).
  4. Calcular exposição aproximada: concentração × massa da toma diária (para comparar com limiares por dose, se usar essa régua).
  5. Rejeitar «zero metais» sem método e LOD.
  6. Escolher com critérios verificáveis: como escolher shilajit.

Perguntas frequentes

Todo o shilajit tem metais pesados perigosos?

Não. Há lotes com teores baixos em testes independentes e há amostras de mercado/cru acima de limiares usados pelos autores. Sem COA do seu lote, não sabe em que lado está.

Cumprir o limite UE de chumbo basta?

É condição necessária para o quadro de contaminantes em suplementos na UE, não prova de «óptimo» nem de ausência de risco se a dose diária for elevada ou se outros contaminantes falharem. Também não substitui rotulagem e notificação DGAV.

Porque o arsénio não tem o mesmo tecto UE na tabela?

No Anexo I do Reg. 2023/915, Pb, Cd e Hg têm entradas explícitas para suplementos alimentares; o arsénio não tem, nessa categoria, o mesmo tipo de máximo geral listado ao lado. Continua a ser um analito crítico no painel de qualidade: peça-o no COA.

Resina é mais «suja» que cápsulas?

O formato não determina sozinho o teor de metais: origem, purificação e controlo de lote sim. Extractos e resinas diferem em fúlvico e dose; metais medem-se no produto acabado. Resina vs cápsulas.

Posso confiar só no laboratório ISO 17025?

Acreditação do lab é um sinal positivo de competência, não garante que o PDF corresponda ao seu lote nem que a especificação usada seja a UE.

Fontes e referências

  1. Carrasco-Gallardo et al. (2012). Int J Alzheimers Dis. PMC3296184: riscos de material não purificado (metais, micotoxinas)
  2. Hussain & Saeed (2024). Heavy metals and humic substances in shilajit. Biol Trace Elem Res. PMID 38393486: revisão metais/húmicos; consumo sem teores conhecidos não é seguro
  3. Saper et al. (2008). Lead, Mercury, and Arsenic in US- and Indian-Manufactured Ayurvedic Medicines Sold via the Internet. JAMA. PMC2755247: inquérito; amostra de shilajit com Pb detectável
  4. Aldakheel et al. (2021). Elemental analysis of Indian and Pakistani shilajit (LIBS/ICP/EDX). Biol Trace Elem Res.: toxinas reportadas acima dos limites usados pelos autores nessas amostras
  5. ConsumerLab: Shilajit Supplements Review (resumo público, 2024): metais baixos numa toma/dia; possível excesso Pb (régua Prop 65) se mais do que uma toma
  6. ConsumerLab: How Products Were Evaluated (métodos e limiares): ICP-MS; Pb/As/Cd/Hg; critérios Prop 65 / Canadá / EPA no programa
  7. Regulamento (UE) 2023/915 — teores máximos de contaminantes nos alimentos: Pb 3,0; Cd 1,0 (SA gerais); Hg 0,10 mg/kg em suplementos alimentares
  8. AOAC SMPR 2024.002: Trace Elemental Contaminants in Food and Beverages (ICP-MS): requisitos de desempenho; As, Cd, Pb, Hg
  9. CDC MMWR (2012). Lead Poisoning in Pregnant Women Who Used Ayurvedic Medications: casos em grávidas; precaução na categoria ayurvédica
  10. ShilajitDB: The State of Shilajit Testing (publicação de COAs): muitos alegam teste; poucos publicam números no produto acabado